
Achei esse texto fantástico, concordo plenamente com o que Maria Rita Kehl disse sobre o assunto.
Texto, usado na aula de Sistemas Nacionais e Internacionais de Comunicação, sobre REGULAÇÃO: A classificação indicativa dos programas de TV.
Maria Rita Kehl – Nem todos os psicanalistas pensam como eu. Tivemos muitas discussões - no antigo grupo Tver - a respeito das fases de desenvolvimento das crianças e a capacidade de recepção da informação. Há quem defenda que crianças abaixo de cinco ou seis anos, simplesmente não estão psicologicamente preparadas para entender cenas de sexo entre adultos. A idéia do “trauma” vem sendo muito mal assimilada por psicanalistas, psi-coterapeutas e pedagogos. Muitos defendem que se a criança pequena for exposta a uma cena de sexo explícito, por exemplo, ficará "traumatizada". Não necessariamente; penso que as crianças podem ver, ouvir e entender praticamente qualquer coisa, desde que a cultura em que elas vivem lhes ofereça elementos para tal. Não existe uma evolução “natural” da inteligência infantil. Existem, isto sim, escolhas da sociedade: nossas crianças evoluirão de acordo com o que nós desejarmos para elas. Nesse sentido, o fundamento que nos leva a querer limitar a exposição de nossas crianças a cenas de pornografia, violência gratuita, drogação, etc., não é psicanalítico: é ético. Simplesmente desejamos aproveitar esse período tão especial da vida para formar cidadãos interessados em outras coisas. A infância é uma época de curiosidade ilimitada, de interesse por tudo, combinados a uma capacidade de assimilação rápida de todas as novidades. É a fase em que se estabelecem os principais parâmetros que formarão nosso senso de “realidade” - mas a realidade humana, vale lembrar, é sempre a realidade social. É uma construção social. Assim, se por um lado não há um impedimento essencial para que a criança “saiba” o que é o sexo, o que é a morte, o que é a violência, etc. - desde que alguém a ajude a compreender isso -, há milhares de razões para desejar que ela se ocupe mentalmente de outras coisas, de muitas outras coisas além do sexo, da violência e da morte. A meu ver, há apenas duas razões para limitar o tipo de conteúdo da programação infanto-juvenil: a primeira é que os pais, em geral, não se dispõem a educar seus filhos para entender criticamente o que eles vêem no cinema e na TV. Pelo contrário, costumam entregar os filhos aos cuidados da TV e, o que é pior: da publicidade. Ainda não discutimos a sério restrições para a publicidade dirigida às crianças, o que eu considero mais importante do que a classificação indicativa de todo o resto da programação. A segunda razão é que, se as cenas de conteúdo dito “adulto” forem liberadas para crianças, o que ainda resta do potencial educativo e formador da televisão - e em menor grau, do cinema - vai por água abaixo de uma vez. Talvez não cause nenhum trauma às crianças ver pornografia; não tenho nenhuma convicção de que lhes faria mal. Minha convicção é que eu desejo que as crianças brasileiras recebam, pela televisão, outros tipos de informação, que farão delas cidadãs mais interessantes, mais éticas, etc. A televisão é um veículo formador muito poderoso, importante demais para que o tempo que as crianças e adolescentes passam diante dela seja desperdiçado com bobagens. O que eu, como mãe e educadora, espero dos veículos de comunicação é que ofereçam material para desenvolver a inteligência, o senso crítico, a criatividade, o senso estético de nossas crianças, porque de bobagens, violência e pornografia o mundo já está cheio.

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