segunda-feira, 9 de maio de 2011

O ciclo da vida




As folhas secas,

Que se desprenderam dos galhos;

É como a morte,

Quando se desgarra da vida.

Mas nem por isso perdem sua utilidade.

Fazem parte de um processo,

Acoplados em fases distintas,

Mas complementares.

O fim não existe.

Se há água, há vida.

Se há vida, há morte.

É na terra que as folhas se desintegram.

Mas, é na terra que elas também florescem.

A morte é dúbia:

Traz em seu significado:

Medo, mas também esperança de uma vida eterna.

O sofrimento pode trazer à tona, a morte.

Mas, a morte também tem o poder de acalentar esta dor.

Depois da morte,não há mais desespero, doença ou pobreza.

O que nos resta é nos prepararmos para a passagem.

Porque no fundo sofremos por quem sofre por nós.

E isto é o maior desapego, que devemos praticar.

terça-feira, 3 de maio de 2011

"Não há razão para comemorar morte de Osama" diz analista.



A primeira reação de grande parte da população americana diante da notícia da morte de Osama bin Laden, o rosto mais famoso do terrorismo internacional, foi sair às ruas para comemorar a derrota de seu inimigo. No entanto, a operação contra o terrorista saudita foi um assassinato sumário e como tal não deveria ser comemorado, de acordo com a análise da historiadora Maria Aparecida de Aquino.

"Há meses vem sendo preparada, junto com o governo do Paquistão, toda uma operação para chegar à casa de Osama Bin Laden. A ordem que se tinha era metralhar, a ordem era atirar. Fica difícil pensar em motivo para comemoração", pondera Aquino, professora em História Social da Universidade de São Paulo (USP).

A pesquisadora também questiona os precendentes abertos pela ação americana. "Isso não significa defender o que aconteceu em 11 de setembro de 2001, que foi um ato terrível e ofendeu a humanidade. Não significa negar o direito da população americana de buscar os culpados. Mas defender a forma como isso foi feito será dar aos Estados Unidos a possibilidade de amanhã entrar em qualquer uma de nossas casas e dizer: ‘olha, imaginei que aqui houvesse um terrorista e andei metralhando’. É muito grave o que aconteceu"

UOL Notícias: Os americanos reagiram à notícia da morte de Bin Laden com festa e era possível ver cenas de comemoração e euforia nas ruas. Existe razão para comemorar? Essa euforia é justificável?

Maria Aparecida Aquino: Não. Se a gente admitir que existe razão para comemorações neste momento, então estaríamos admitindo que existe razão para comemorar um assassinato. Uma coisa que normalmente não se comenta é que os Estados Unidos gostam de jogar na cara de todos os outros países que eles são os guardiões da democracia do mundo, e sempre interferem nos outros países para assegurar a democracia. Entretanto, o que eles fizeram nesse caso é simplesmente um assassinato. Se houve um crime e você está atrás de uma pessoa que é teoricamente uma das responsáveis por esse crime, você tem o direito de pegar essa pessoa e submetê-la a um julgamento. Mas o que aconteceu foi simplesmente um assassinato.

Há meses vem sendo preparada, junto com o governo do Paquistão, toda uma operação para chegar à casa de Osama Bin Laden. A ordem que se tinha era metralhar, a ordem era atirar. Fica difícil pensar em motivo para comemoração.

O que podemos observar é que toda a euforia inicial nos Estados Unidos já baixou um pouco, porque eles têm um temor muito grande – e devem mesmo; pensar que a Al Qaeda se restringe a um homem só, Osama bin Laden, é uma tolice. A Al Qaeda é uma imensa organização. E é muito possível que haja retaliações. Então, em circunstância alguma teríamos motivos para comemorar, mesmo pertencendo à população americana, mesmo sendo o presidente dos Estados Unidos.

Se pessoas como nós, pessoas comuns, simplesmente coadunássemos com a ideia de comemoração, estaríamos coadunando contra todos os princípios que os próprios Estados Unidos dizem defender com tanta força.

UOL Notícias: Então é possível imaginar que os Estados Unidos poderiam ter feito uma captura sem recorrer a assassinato?

Aquino: Lógico. Eles tinham noção da localização. Planejaram a ação muito cuidadosamente. Chegaram até a casa e uma vez lá não havia condições de reação. Eles simplesmente metralharam quem estava pela frente.

UOL Notícias: Com relação ao corpo, como a senhora interpreta essa decisão dos Estados Unidos jogá-lo ao mar?

Aquino: A notícia de que eles teriam jogado o corpo ao mar é mais grave ainda, porque você não só submete o inimigo a um assassinato, como você também impede o ritual da morte.

Mesmo que não haja uma retaliação imediata, em breve essa ficha acaba caindo, mesmo entre a população, de que nem mesmo o direito à morte foi dado. Um dos maiores pilares da democracia é o habeas corpus, que em uma tradução muito simples do latim quer dizer: que se tenha direito ao corpo. Então foi negado um elemento característico do estado de Direito.

MORTE DE BIN LADEN

Os americanos têm direito de estar muito zangados com o que aconteceu no 11 de setembro? Sim. Têm direito de investigar quem seriam os responsáveis? Sim. Mas a forma como se faz isso pode acabar por retirar todos os direitos que nos restam.

UOL Notícias: É possível imaginar que os Estados Unidos enxerguem a morte de Bin Laden como a morte do “mal”?

Aquino: É o que eles defendem. No fundo, eles pretendem impor ao mundo inteiro uma ideia: de que estão cobertos de razão, de que a humanidade pode respirar aliviada e de que agora estamos livres do mal, já que o mal estava condensado em uma pessoa. Mas isso é uma ilusão de ótica. É como os mágicos fazem: você olha para o outro lado, não presta atenção na prestidigitação que ele está fazendo com as mãos. Não podemos cair nesta história.

Isso não significa defender o que aconteceu em 11 de setembro de 2001, que foi um ato terrível e ofendeu a humanidade. Não significa negar o direito da população americana de buscar os culpados. Mas defender a forma como isso foi feito será dar aos Estados Unidos a possibilidade de amanhã entrar em qualquer uma de nossas casas e dizer: ‘olha, imaginei que aqui houvesse um terrorista e andei metralhando’. É muito grave o que aconteceu. Ou seja, não há motivo para comemoração.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O pastor herege


Deus nos livre de um Brasil evangélico”, diz o religioso Ricardo Gondim, crítico dos movimentos neopentecostais.
Fonte: Revista Carta Capital

“Deus nos livre de um Brasil evangélico.” Quem afirma é um pastor, o cearense Ricardo Gondim. Segundo ele, o movimento neopentecostal se expande com um projeto de poder e imposição de valores, mas em seu crescimento estão as raízes da própria decadência. Os evangélicos, diz Gondim, absorvem cada vez mais elementos do perfil religioso típico dos brasileiros, embora tendam a recrudescer em questões como o aborto e os direitos homossexuais. Aos 57 anos, pastor há 34, Gondim é líder da Igreja Betesda e mestre em teologia pela Universidade Metodista. E tornou-se um dos mais populares críticos do mainstream evangélico, o que o transformou em alvo. “Sou o herege da vez”, diz na entrevista a seguir.

CartaCapital: Os evangélicos tiveram papel importante nas últimas eleições. O Brasil está se tornando um país mais influenciável pelo discurso desse movimento?
Ricardo Gondim: Sim, mesmo porque, é notório o crescimento do número de evangélicos. Mas é importante fazer uma ponderação qualitativa. Quanto mais cresce, mais o movimento evangélico também se deixa influenciar. O rigor doutrinário e os valores típicos dos pequenos grupos se dispersam, e os evangélicos ficam mais próximos do perfil religioso típico do brasileiro.

CC: Como o senhor define esse perfil?
RG: Extremamente eclético e ecumênico. Pela primeira vez, temos evangélicos que pertencem também a comunidades católicas ou espíritas. Já se fala em um “evangelicalismo popular”, nos moldes do catolicismo popular, e em evangélicos não praticantes, o que não existia até pouco tempo atrás. O movimento cresce, mas perde força. E por isso tem de eleger alguns temas que lhe assegurem uma identidade. Nos Estados Unidos, a igreja se apega a três assuntos: aborto, homossexualidade e a influência islâmica no mundo. No Brasil, não é diferente. Existe um conservadorismo extremo nessas áreas, mas um relaxamento em outras. Há aberrações éticas enormes.

CC: O senhor escreveu um artigo intitulado “Deus nos Livre de um Brasil Evangélico”. Por que um pastor evangélico afirma isso?
RG: Porque esse projeto impõe não só a espiritualidade, mas toda a cultura, estética e cosmovisão do mundo evangélico, o que não é de nenhum modo desejável. Seria a talebanização do Brasil. Precisamos da diversidade cultural e religiosa. O movimento evangélico se expande com a proposta de ser a maioria, para poder cada vez mais definir o rumo das eleições e, quem sabe, escolher o presidente da República. Isso fica muito claro no projeto da Igreja Universal. O objetivo de ter o pastor no Congresso, nas instâncias de poder, é o de facilitar a expansão da igreja. E, nesse sentido, o movimento é maquiavélico. Se é para salvar o Brasil da perdição, os fins justificam os meios.

CC: O movimento americano é a grande inspiração para os evangélicos no Brasil?
RG: O movimento brasileiro é filho direto do fundamentalismo norte-americano. Os Estados Unidos exportam seu american way oflife de várias maneiras, e a igreja evangélica é uma das principais. As lideranças daqui leem basicamente os autores norte-americanos e neles buscam toda a sua espiritualidade, teologia e normatização comportamental. A igreja americana é pragmática, gerencial, o que é muito próprio daquela cultura. Funciona como uma agência prestadora de serviços religiosos, de cura, libertação, prosperidade financeira. Em um país como o Brasil, onde quase todos nascem católicos, a igreja evangélica precisa ser extremamente ágil, pragmática e oferecer resultados para se impor. É uma lógica individualista e antiética. Um ensino muito comum nas igrejas é a de que Deus abre portas de emprego para os fiéis. Eu ensino minha comunidade a se desvincular dessa linguagem. Nós nos revoltamos quando ouvimos que algum político abriu uma porta para o apadrinhado. Por que seria diferente com Deus?

CC: O senhor afirma que a igreja evangélica brasileira está em decadência, mas o movimento continua a crescer.
RG: Uma igreja que, para se sustentar, precisa de campanhas cada vez mais mirabolantes, um discurso cada vez mais histriônico e promessas cada vez mais absurdas está em decadência. Se para ter a sua adesão eu preciso apelar a valores cada vez mais primitivos e sensoriais e produzir o medo do mundo mágico, transcendental, então a minha mensagem está fragilizada.

CC: Pode-se dizer o mesmo do movimento norte-americano?
RG: Muitos dizem que sim, apesar dos números. Há um entusiasmo crescente dos mesmos, mas uma rejeição cada vez maior dos que estão de fora. Hoje, nos Estados Unidos, uma pessoa que não tenha sido criada no meio e que tenha um mínimo de senso crítico nunca vai se aproximar dessa igreja, associada ao Bush, à intolerância em todos os sentidos, ao Tea Party, à guerra.

CC: O senhor é a favor da união civil entre homossexuais?
RG: Sou a favor. O Brasil é um país laico. Minhas convicções de fé não podem influenciar, tampouco atropelar o direito de outros. Temos de respeitar as necessidades e aspirações que surgem a partir de outra realidade social. A comunidade gay aspira por relacionamentos juridicamente estáveis. A nação tem de considerar essa demanda. E a igreja deve entender que nem todas as relações homossensuais são promíscuas. Tenho minhas posições contra a promiscuidade, que considero ruim para as relações humanas, mas isso não tem uma relação estreita com a homossexualidade ou heterossexualidade.

CC: O senhor enfrenta muita oposição de seus pares?
RG: Muita! Fui eleito o herege da vez. Entre outras coisas, porque advogo a tese de que a teologia de um Deus títere, controlador da história, não cabe mais. Pode ter cabido na era medieval, mas não hoje. O Deus em que creio não controla, mas ama. É incompatível a existência de um Deus controlador com a liberdade humana. Se Deus é bom e onipotente, e coisas ruins acontecem, então há algo errado com esse pressuposto. Minha resposta é que Deus não está no controle. A favela, o córrego poluído, a tragédia, a guerra, não têm nada a ver com Deus. Concordo muito com Simone Weil, uma judia convertida ao catolicismo durante a Segunda Guerra Mundial, quando diz que o mundo só é possível pela ausência de Deus. Vivemos como se Deus não existisse, porque só assim nos tornamos cidadãos responsáveis, nos humanizamos, lutamos pela vida, pelo bem. A visão de Deus como um pai todo-poderoso, que vai me proteger, poupar, socorrer e abrir portas é infantilizadora da vida.

CC: Mas os movimentos cristãos foram sempre na direção oposta.

RG: Não necessariamente. Para alguns autores, a decadência do protestantismo na Europa não é, verdadeiramente, uma decadência, mas o cumprimento de seus objetivos: igrejas vazias e cidadãos cada vez mais cidadãos, mais preocupados com a questão dos direitos humanos, do bom trato da vida e do meio ambiente.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Filme: Sem Limites



Sinopse:

Há anos o escritor Eddie Morra (Bradley Cooper) esta sofrendo um bloqueio criativo. Quando um velho amigo lhe apresenta um remédio revolucionário sua vida muda instantaneamente. Trata-se de uma droga em fase de testes chamada NZT, que permite ao seu usuário ter acesso total ao seu cérebro e não apenas aos 20% que utilizamos normalmente.Com o remédio Eddie passa a usar 100% do seu cérebro. Ele consegue lembrar de tudo que já leu, ouviu ou viu em toda sua vida. Aprende línguas, faz cálculos, consegue ler e escrever muito rapidamente. Porém para que tudo isto ocorra ele precisa tomar o remédio todo dia. Em poucas semanas Eddie vira o rei de Wall Street chamando a atenção do mega empresário Carl Van Loon (Robert De Niro) que o contrata para fechar um dos maiores negócios da história. Tendo se tornado uma pessoa perfeita ele agora passará a viver sem limites.

ÓTIMO!!! Quem dera, se eu tivesse acesso a um remédio desses! O filme esbanja adrenalina.Para mostrar esse mundo a mil por hora que passa pelos lindos olhos azuis de Eddie, o diretor Neil Burger e o diretor de fotografia Jo Willems criam um efeito-vertigo-com-luzes bastante interessante, com a câmera passando em alta velocidade através de tudo o que está em sua frente.
Estes elementos gráficos, embora bastante imaginativos e importantes para ilustrar as mudanças vividas por Eddie, não são o único ponto positivo do filme. O roteiro também é ao mesmo tempo esperto, ligeiro, engraçado e perspicaz. Enquanto faz sua meteórica carreira, pílula a pílula,rumo ao topo do mundo, Eddie vai passando pelos mundos paralelos do tráfico, da máfia e das grandes corporações até chegar à política. É a escalada natural do dinheiro e do poder. A trilha sonora também não podia ser mais acertada.


 




Frase do dia



Frase que o professor botou no quadro hoje e que me deixou, em estado de reflexão.Valeu mais que qualquer aula dada.

"A tristeza só vem quando você escolhe se concentrar no que lhe falta e não nas dádivas que recebeu".

O glamour de ser feliz, por Lilian Graziano



Estou apaixonada pelos textos da Lilian.Muito interessantes! Por isso, deixo mais um aqui, para vocês se deliciarem.Beijos

Hoje em dia tem se falado muito em felicidade. Não que o tema guarde em si algum caráter inusitado. No entanto, nos últimos tempos, o interesse pelo assunto parece ter aumentado; talvez, paradoxalmente, na mesma proporção das legiões de pessoas que, ao redor do mundo, contentam-se com uma vida pouco mais que medíocre. Nesse sentido, concordo com Sêneca, filósofo contemporâneo de Cristo, que, ao observar os níveis de insatisfação da sociedade de sua época dizia: “Para ser feliz, a primeira coisa que um indivíduo deve fazer é negar-se seguir a multidão”.

Há alguns anos descobri, por intermédio de uma psicoterapia, que boa parte de meu sofrimento advinha do fato de eu buscar a aprovação de pessoas cujas vidas — pasmem — eu não aprovava.

É isso mesmo: Eu me encontrava dividida entre o desejo de aprovação e o da libertação.

Queria me desvencilhar de padrões que me pareciam sem sentido e que eram compartilhados pelo grupo ao qual eu pertencia. Mas ao mesmo tempo, o desejo de obter a aprovação desse grupo me levava a me comportar (ou ao menos tentar) como se fosse um deles.

Tomei consciência de que havia me libertado desse dilema quando passei a me orgulhar do papel de ovelha negra que, desde a infância, me fora atribuído. Foi nesse momento também que percebi que para ser feliz seria preciso abandonar o antigo grupo como padrão de referência, alçando um voo solo que, por vezes, parecer-me-ia aterrador.



Existem muitas formas de “seguir a multidão” e acreditar que a felicidade não existe é, certamente, uma delas. Afinal, o sofrimento é uma das poucas certezas da vida, diriam os mais pessimistas, com os quais sou obrigada a, parcialmente, concordar.

De fato não é possível levarmos uma vida sem a experiência do sofrimento. E mesmo que nos dediquemos a evitá-la a todo custo, a dor teimará em existir, para além de nossos esforços. No entanto, pesquisas apontam que a felicidade e o sofrimento são dimensões relativamente independentes da experiência humana. Ou seja: é possível ser feliz e ainda assim experimentar momentos de sofrimento.

Nesse sentido, descobrimo-nos felizes quando fazemos um balanço de nossas vidas e, entre dores e alegrias, obtemos um saldo positivo. Mas e quando o saldo é negativo? Nessas ocasiões a saída é acreditar que se está no controle.

Em 2004, ao concluir minha pesquisa de doutorado sobre o tema da felicidade humana, descobri que pessoas que acreditam controlar suas próprias vidas têm muito mais chances de serem pessoas felizes. Isso porque elas sabem que sua felicidade depende de nada (nem ninguém) além delas próprias. Ao contrário do que se imagina, não há marido, nem filhos, nem chefe, nem governo, poderosos o bastante para tornar infeliz (ou feliz) a vida de uma pessoa.

Mas há ainda uma outra forma de “seguir a multidão” em relação à felicidade que é confundir felicidade com prazer. Durante anos a sociedade ocidental tem nos vendido prazer sob o rótulo de felicidade. Daí o equívoco de acreditarmos, por exemplo, em artifícios como “shoppingterapia” para a promoção de uma vida feliz. Ficamos deprimidos, vamos às compras e tudo melhora… Pelo menos até nos deprimirmos de novo, irmos às compras e assim por diante.

Um belo dia acordamos e resolvemos fazer o tal “balanço” de nossas vidas… e aí a casa cái…

O problema é que o prazer possui, por definição e ao contrário da felicidade, um caráter eminentemente passageiro. Estudos realizados com cobaias alertam para o caráter “viciante” do prazer: ao pressionarem uma barra localizada em sua gaiola, ratos de laboratório recebiam uma pequena descarga elétrica numa região do cérebro, o que lhes dava uma enorme sensação de prazer. Obcecados pelo prazer que a ação lhes proporcionava, tais ratinhos acabaram por morrer de inanição, pois não faziam nada mais além de pressionar a barra, esquecendo-se até mesmo de se alimentar.

Não há nada de errado em buscarmos o prazer, até porque ele faz, até certo ponto, parte de nossa felicidade. No entanto, a conquista de uma vida feliz exige irmos além. Precisamos aprender a distinguir prazer de felicidade, cultivando emoções positivas, relacionamentos gratificantes e uma vida que valha a pena ser vivida: é aí que se encontra verdadeiro glamour de ser feliz.



Sobre flores e esterco, por Lilian Graziano



O perdão é uma das maneiras de se cultivar emoções positivas em relação ao passado. O cultivo de emoções positivas está ligado com um tema maior sobre o qual os psicólogos positivos têm se debruçado: A felicidade humana.

Em linhas gerais, feliz é a pessoa que consegue cultivar emoções positivas em relação ao passado, ao presente e ao futuro. Falando dessa maneira parece tarefa fácil, mas na realidade estamos falando de um desafio que pode ocupar um indivíduo por toda a sua vida. Quando pensamos no nosso passado, por exemplo, o desafio é cultivar o perdão e a gratidão, sobre a qual gostaríamos de falar.

Talvez um pouco desgastado pelo pensamento judaico-cristão, o cultivo da gratidão não é tarefa tão simples quanto, num primeiro momento, possa parecer. Isso porque ela depende, em primeiro lugar, de que o indivíduo tenha capacidade de “saborear” sua vida. Trata-se do “savoring” : a capacidade de identificar e desfrutar das coisas boas da vida, mas não naquele sentido Dionísico ao qual muitos se entregam na busca desenfreada pelo prazer e sim em relação às coisas capazes de nos trazer significado. A conclusão é simples: só podemos agradecer por aquilo que percebemos como digno de agradecimento. E é nessa simplicidade que se encontra o desafio: será que nos damos conta das coisas boas que acontecem conosco? Para os recursos dos quais dispomos? Ou temos o nosso olhar viciado para os problemas, limitações e para aquilo “que falta”? O que você costuma fazer com mais freqüência: reclamar dos defeitos dos outros ou elogiar suas qualidades?

Há também aqueles cujas vidas são marcadas por um ritmo tão frenético que não lhes sobra tempo para identificar aspectos passíveis de agradecimento. Por quantas vezes passamos por árvores floridas sem nos darmos conta de sua existência?

Nesse sentido, Seligman descreve um exercício de gratidão que ele praticava com sua filha de cinco anos e que, por um momento, me fez ter vontade de ter outro filho para, dessa vez, educá-lo a partir da Psicologia Positiva. Todas as noites, ao colocar a menina para dormir, convidava-a a refletir sobre as coisas boas que lhe aconteceram durante o dia: um novo amiguinho que ela conheceu, a visita do priminho ou a brincadeira de esguicho com o papai.

Não seria essa uma verdadeira prece?

Certa vez ouvi que na vida existem dois tipos de pessoas: as que, diante de um jardim, admiram-se com as flores e aquelas que, frente ao mesmo jardim, observam o esterco. Acredito que haja muito mais para agradecer nas flores do que no esterco. Mas é você quem escolhe para onde quer olhar…

Lilian Graziano é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde tem oferecido atendimento clínico e consultoria empresarial na área de comportamento humano. Seu trabalho de doutorado sobre Psicologia Positiva e Felicidade foi a primeira tese brasileira sobre o tema.