terça-feira, 12 de abril de 2011

O glamour de ser feliz, por Lilian Graziano



Estou apaixonada pelos textos da Lilian.Muito interessantes! Por isso, deixo mais um aqui, para vocês se deliciarem.Beijos

Hoje em dia tem se falado muito em felicidade. Não que o tema guarde em si algum caráter inusitado. No entanto, nos últimos tempos, o interesse pelo assunto parece ter aumentado; talvez, paradoxalmente, na mesma proporção das legiões de pessoas que, ao redor do mundo, contentam-se com uma vida pouco mais que medíocre. Nesse sentido, concordo com Sêneca, filósofo contemporâneo de Cristo, que, ao observar os níveis de insatisfação da sociedade de sua época dizia: “Para ser feliz, a primeira coisa que um indivíduo deve fazer é negar-se seguir a multidão”.

Há alguns anos descobri, por intermédio de uma psicoterapia, que boa parte de meu sofrimento advinha do fato de eu buscar a aprovação de pessoas cujas vidas — pasmem — eu não aprovava.

É isso mesmo: Eu me encontrava dividida entre o desejo de aprovação e o da libertação.

Queria me desvencilhar de padrões que me pareciam sem sentido e que eram compartilhados pelo grupo ao qual eu pertencia. Mas ao mesmo tempo, o desejo de obter a aprovação desse grupo me levava a me comportar (ou ao menos tentar) como se fosse um deles.

Tomei consciência de que havia me libertado desse dilema quando passei a me orgulhar do papel de ovelha negra que, desde a infância, me fora atribuído. Foi nesse momento também que percebi que para ser feliz seria preciso abandonar o antigo grupo como padrão de referência, alçando um voo solo que, por vezes, parecer-me-ia aterrador.



Existem muitas formas de “seguir a multidão” e acreditar que a felicidade não existe é, certamente, uma delas. Afinal, o sofrimento é uma das poucas certezas da vida, diriam os mais pessimistas, com os quais sou obrigada a, parcialmente, concordar.

De fato não é possível levarmos uma vida sem a experiência do sofrimento. E mesmo que nos dediquemos a evitá-la a todo custo, a dor teimará em existir, para além de nossos esforços. No entanto, pesquisas apontam que a felicidade e o sofrimento são dimensões relativamente independentes da experiência humana. Ou seja: é possível ser feliz e ainda assim experimentar momentos de sofrimento.

Nesse sentido, descobrimo-nos felizes quando fazemos um balanço de nossas vidas e, entre dores e alegrias, obtemos um saldo positivo. Mas e quando o saldo é negativo? Nessas ocasiões a saída é acreditar que se está no controle.

Em 2004, ao concluir minha pesquisa de doutorado sobre o tema da felicidade humana, descobri que pessoas que acreditam controlar suas próprias vidas têm muito mais chances de serem pessoas felizes. Isso porque elas sabem que sua felicidade depende de nada (nem ninguém) além delas próprias. Ao contrário do que se imagina, não há marido, nem filhos, nem chefe, nem governo, poderosos o bastante para tornar infeliz (ou feliz) a vida de uma pessoa.

Mas há ainda uma outra forma de “seguir a multidão” em relação à felicidade que é confundir felicidade com prazer. Durante anos a sociedade ocidental tem nos vendido prazer sob o rótulo de felicidade. Daí o equívoco de acreditarmos, por exemplo, em artifícios como “shoppingterapia” para a promoção de uma vida feliz. Ficamos deprimidos, vamos às compras e tudo melhora… Pelo menos até nos deprimirmos de novo, irmos às compras e assim por diante.

Um belo dia acordamos e resolvemos fazer o tal “balanço” de nossas vidas… e aí a casa cái…

O problema é que o prazer possui, por definição e ao contrário da felicidade, um caráter eminentemente passageiro. Estudos realizados com cobaias alertam para o caráter “viciante” do prazer: ao pressionarem uma barra localizada em sua gaiola, ratos de laboratório recebiam uma pequena descarga elétrica numa região do cérebro, o que lhes dava uma enorme sensação de prazer. Obcecados pelo prazer que a ação lhes proporcionava, tais ratinhos acabaram por morrer de inanição, pois não faziam nada mais além de pressionar a barra, esquecendo-se até mesmo de se alimentar.

Não há nada de errado em buscarmos o prazer, até porque ele faz, até certo ponto, parte de nossa felicidade. No entanto, a conquista de uma vida feliz exige irmos além. Precisamos aprender a distinguir prazer de felicidade, cultivando emoções positivas, relacionamentos gratificantes e uma vida que valha a pena ser vivida: é aí que se encontra verdadeiro glamour de ser feliz.



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