terça-feira, 12 de abril de 2011

Sobre flores e esterco, por Lilian Graziano



O perdão é uma das maneiras de se cultivar emoções positivas em relação ao passado. O cultivo de emoções positivas está ligado com um tema maior sobre o qual os psicólogos positivos têm se debruçado: A felicidade humana.

Em linhas gerais, feliz é a pessoa que consegue cultivar emoções positivas em relação ao passado, ao presente e ao futuro. Falando dessa maneira parece tarefa fácil, mas na realidade estamos falando de um desafio que pode ocupar um indivíduo por toda a sua vida. Quando pensamos no nosso passado, por exemplo, o desafio é cultivar o perdão e a gratidão, sobre a qual gostaríamos de falar.

Talvez um pouco desgastado pelo pensamento judaico-cristão, o cultivo da gratidão não é tarefa tão simples quanto, num primeiro momento, possa parecer. Isso porque ela depende, em primeiro lugar, de que o indivíduo tenha capacidade de “saborear” sua vida. Trata-se do “savoring” : a capacidade de identificar e desfrutar das coisas boas da vida, mas não naquele sentido Dionísico ao qual muitos se entregam na busca desenfreada pelo prazer e sim em relação às coisas capazes de nos trazer significado. A conclusão é simples: só podemos agradecer por aquilo que percebemos como digno de agradecimento. E é nessa simplicidade que se encontra o desafio: será que nos damos conta das coisas boas que acontecem conosco? Para os recursos dos quais dispomos? Ou temos o nosso olhar viciado para os problemas, limitações e para aquilo “que falta”? O que você costuma fazer com mais freqüência: reclamar dos defeitos dos outros ou elogiar suas qualidades?

Há também aqueles cujas vidas são marcadas por um ritmo tão frenético que não lhes sobra tempo para identificar aspectos passíveis de agradecimento. Por quantas vezes passamos por árvores floridas sem nos darmos conta de sua existência?

Nesse sentido, Seligman descreve um exercício de gratidão que ele praticava com sua filha de cinco anos e que, por um momento, me fez ter vontade de ter outro filho para, dessa vez, educá-lo a partir da Psicologia Positiva. Todas as noites, ao colocar a menina para dormir, convidava-a a refletir sobre as coisas boas que lhe aconteceram durante o dia: um novo amiguinho que ela conheceu, a visita do priminho ou a brincadeira de esguicho com o papai.

Não seria essa uma verdadeira prece?

Certa vez ouvi que na vida existem dois tipos de pessoas: as que, diante de um jardim, admiram-se com as flores e aquelas que, frente ao mesmo jardim, observam o esterco. Acredito que haja muito mais para agradecer nas flores do que no esterco. Mas é você quem escolhe para onde quer olhar…

Lilian Graziano é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde tem oferecido atendimento clínico e consultoria empresarial na área de comportamento humano. Seu trabalho de doutorado sobre Psicologia Positiva e Felicidade foi a primeira tese brasileira sobre o tema.



O testamento- Por Rubem Alves



Escrito e publicado na edição ano VI nº 63 da revista Psique:

" Tempos atrás eu sugeri que se fizesse uma mudança na liturgia que marca a passagem dos anos da vida de uma pessoa, que não mais se apagassem as velinhas, como se a morte dos anos passados fosse uma coisa a ser celebrada, mas que se acendesse uma única vela, na esperança de um futuro semelhante ao da vela, de luz e tranquilidade.

O tempo passou e chegou a hora de reacender a minha vela. Que pensamentos pensarei? Acho que vou meditar sobre o testamento. É uma idéia da qual não se pode fugir, quando se da conta de que a cera que resta é muito menos do que a cera que já se queimou.

O testamento é o que restou, depois de feitas todas as somas e subtrações. É aquilo que se passa ãs mãos dos que continuarão a viver depois de nós, com um pedido: "Por favor, na minha ausência, não se esqueça de regar a minha planta..."

Claro que não estou pensando nas coisas que fui ajuntando no passar dos anos. Elas nào tem a menor importancia. Não tem o poder de nos tornar nem mais sábios e nem mais felizes. Porque sabedoria e felicidade são coisas que crescem por dentro, enquanto as coisas ajuntadas ficam de fora. Pelo contrário: já vi vidas e amizades perturbadas e destruídas por causa de uma herança.

Mas aí me descubro ansioso. Porque a distribuição de propriedades e objetos é coisa simples - basta que se escreva um testamento. Mas aquilo que eu realmente desejo dar para meus filhos não pode ser dado. É coisa que só pode ser semeada, na esperança de que venha a crescer.

Acho que a minha situaçào se parece com a de Vinícius de Moraes. Também ele queria deixar um testamento. Não de coisas, como se fosse um ritual eucarístico, em que o que se dá aos outros são pedaços do próprio corpo, na esperança de que eles comerão e gostarão. No fundo, o que se deseja é a imortalidade: continuar vivos naqueles que comem o que lhes oferecemos como herança.

Mas só existe um jeito de dar ao outro aquilo que é a carne da gente: falando. Vejam só que coisa mais pobre: uma herança cujas coisas deixadas são palavras.

É o que desejo deixar aos meus filhos como herança: a imagem da vela que queima na solidão silenciosa, sem se deixar perturbar pela loucura barulhenta e apressada dos homens de ação e sucesso; sob a luz da vela, no gozo da tranquilidade solitária, acordar o poeta que dorme em nós. O que não é garantia de felicidade. Mas é garantiad e beleza e de serenidade. E que coisa mais pode alguém desejar receber como herança? "

Rubem Alves é escritor,educador e psicanalista

Criança gosta...




O que a criança repara quando anda na rua ou quando pára diante de uma pessoa?

No colo de quem lhe protege, ele repara as placas coloridas,o vestido estampado da mulher, o jardim na frente de um prédio, mesmo que sua visão ainda seja carente de nitidez.

Como nós, eles têm prazer em enxergar o que é belo, colorido. Criança não vai no colo de quem lhe passa insegurança, não abraça quem lhe maltrata, não ri para quem grita. O que eles querem é amor.

Mil surpresas acham ao seu redor. Provam das frutas, seu sabor.

Criança gosta de música, poesia, pintura.

Criança gosta de respeito, gosta de carinho,atenção,gosta de educação...de dedicação!

Criança gosta de comer bem, gosta de uma cama quentinha, gosta do coleginha.

Crianças não nascem racistas, nem preconceituosas.

Muito menos,mal educadas, indelicadas e más.

Criança aprende o que lhe é ensinado.

Quem plantou a indiferença com o próximo,

É quem falhou.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Jackson Lago




Será que a morte é um fenômeno transcendental que encerra todas as vicissitudes da vida?
Esta foi uma das indagações,que me fiz, ao assistir o Jornal Nacional,nesta segunda-feira.
Quando uma pessoa morre, costuma-se falar bem do falecido. Dizem que foi um irreparável amigo, um marido companheiro, um excelente pai de familia etc.Mas, não foi isso que presenciei na noticia.
O ex-governador do Maranhão Jackson Lago morreu ontem(4), aos 76 anos, por falência de múltiplos órgãos. Desde 2004, ele lutava contra um câncer de próstata. Lago foi um dos fundadores do PDT, ao lado de Leonel Brizola.
Fátima Bernardes ao divulgar tal fato  foi direta e insensivel,o que me chocou. Eu que estava sentada no sofá da sala, por lá permaneci.Estarrecida, digo de passagem, sem saber ao certo o que achava sobre aquilo tudo. Pensei, de imediato,o que diriam de mim,caso chegasse a minha hora de partir.
Tive pena do falecido. No dia de sua morte, a única homenagem que recebeu foi a retrospectiva das  falhas que cometeu em vida.
Foi frisada a acusação de abuso de poder político e econômico na eleição de 2006 - o que sempre negou -, Lago teve o mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em março de 2009.
Aquela emissora esqueceu que ele deixou mulher, três filhos e seis netos. Que além de tudo era médico de formação e professor de medicina. Esqueceram de falar, que ele era um ser humano como todos nós,cometedores de erros leves, graves e gravissimos, mas que por certo deveria ter alguma dedicação e competência em alguma área.
Não estou dizendo que o que ele fez é certo. O que me deixou desconcertada foi a falta de solidariedade com o sofrimento alheio, principalmente com parentes e amigos.
Não há mais que se discutir sua atuação como homem público. No meio politico ele já recebeu a punição que deveria. Até sua doença, foi um meio de punição,algo lenta e, inquestionavelmente, dolorosa. Não há necessidade de enchê-lo de elogios, basta respeitar este momento.Depois da morte já não há nada para remediar.O que sobra, é o sofrimento dos que cá ficam.
Peço piedade, para com aqueles que já se foram, mesmo que estes carreguem suas doses de dolo ou culpa. Isso parece ser, para mim, politicamente correto.


 

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Guimarães Rosa



"O que a vida quer da gente é coragem, nem sempre estamos disponíveis ou fortes para tanto. Cada um sabe onde lateja seu desamparo".

Termos da nova dramática- Elisa Lucinda





Uma dose de Elisa Lucinda

Termos da nova dramática

Parem de falar mal da rotina

parem com essa sina anunciada

de que tudo vai mal porque se repete.

Mentira. Bi-mentira:

não vai mal porque repete.

Parece, mas não repete

não pode repetir

É impossível!

O ser é outro

o dia é outro

a hora é outra

e ninguém é tão exato.

Nem filme.

Pensando firme

nunca ouvi ninguém falar mal de determinadas rotinas:

chuva dia azul crepúsculo primavera lua cheia céu estrelado barulho do mar

O que que há?

Parem de falar mal da rotina

beijo na boca

mão nos peitinhos

água na sede

flor no jardim

colo de mãe

namoro

vaidades de banho e batom

vaidades de terno e gravata

vaidades de jeans e camiseta

pecados paixões punhetas

livros cinemas gavetas

são nossos óbvios de estimação

e ninguém pra eles fala não

abraço pau buceta inverno

carinho sal caneta e quero

são nossas repetições sublimes

e não oprime o que é belo

e não oprime o que aquela hora chama de bom

na nossa peça

na trama

na nossa ordem dramática

nosso tempo então é quando

nossa circunstância é nossa conjugação

Então vamos à lição:

gente-sujeito

vida-predicado

eis a minha oração.

Subordinadas aditivas ou adversativas

aproximem-se!

é verão

é tesão!

O enredo

a gente sempre todo dia tece

o destino aí acontece:

o bem e o mal

tudo depende de mim

sujeito determinado da oração principal.

Clarice Lispector



"Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele..."

"Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer."


Isso é que é sabedoria, o resto é resto!!!