O perdão é uma das maneiras de se cultivar emoções positivas em relação ao passado. O cultivo de emoções positivas está ligado com um tema maior sobre o qual os psicólogos positivos têm se debruçado: A felicidade humana.
Em linhas gerais, feliz é a pessoa que consegue cultivar emoções positivas em relação ao passado, ao presente e ao futuro. Falando dessa maneira parece tarefa fácil, mas na realidade estamos falando de um desafio que pode ocupar um indivíduo por toda a sua vida. Quando pensamos no nosso passado, por exemplo, o desafio é cultivar o perdão e a gratidão, sobre a qual gostaríamos de falar.
Talvez um pouco desgastado pelo pensamento judaico-cristão, o cultivo da gratidão não é tarefa tão simples quanto, num primeiro momento, possa parecer. Isso porque ela depende, em primeiro lugar, de que o indivíduo tenha capacidade de “saborear” sua vida. Trata-se do “savoring” : a capacidade de identificar e desfrutar das coisas boas da vida, mas não naquele sentido Dionísico ao qual muitos se entregam na busca desenfreada pelo prazer e sim em relação às coisas capazes de nos trazer significado. A conclusão é simples: só podemos agradecer por aquilo que percebemos como digno de agradecimento. E é nessa simplicidade que se encontra o desafio: será que nos damos conta das coisas boas que acontecem conosco? Para os recursos dos quais dispomos? Ou temos o nosso olhar viciado para os problemas, limitações e para aquilo “que falta”? O que você costuma fazer com mais freqüência: reclamar dos defeitos dos outros ou elogiar suas qualidades?
Há também aqueles cujas vidas são marcadas por um ritmo tão frenético que não lhes sobra tempo para identificar aspectos passíveis de agradecimento. Por quantas vezes passamos por árvores floridas sem nos darmos conta de sua existência?
Nesse sentido, Seligman descreve um exercício de gratidão que ele praticava com sua filha de cinco anos e que, por um momento, me fez ter vontade de ter outro filho para, dessa vez, educá-lo a partir da Psicologia Positiva. Todas as noites, ao colocar a menina para dormir, convidava-a a refletir sobre as coisas boas que lhe aconteceram durante o dia: um novo amiguinho que ela conheceu, a visita do priminho ou a brincadeira de esguicho com o papai.
Não seria essa uma verdadeira prece?
Certa vez ouvi que na vida existem dois tipos de pessoas: as que, diante de um jardim, admiram-se com as flores e aquelas que, frente ao mesmo jardim, observam o esterco. Acredito que haja muito mais para agradecer nas flores do que no esterco. Mas é você quem escolhe para onde quer olhar…
Lilian Graziano é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde tem oferecido atendimento clínico e consultoria empresarial na área de comportamento humano. Seu trabalho de doutorado sobre Psicologia Positiva e Felicidade foi a primeira tese brasileira sobre o tema.






