
Hoje (28), tivemos uma palestra na Faesa sobre o Estatuto do Idoso e em seguida nos dirigimos até o Asilo de Amparo aos Idosos,que fica atrás da Faesa, Campus I, na Avenida Vitória.Trata-se de uma instituição beneficente que acolhe pessoas em dificuldade. E diante daquela realidade, tive momentos de raiva de mim mesma, pois tento ser forte e ajudar essas pessoas tão carentes de amor e atenção, mas me falta estrutura emocional para isso. Acredito que cuidar de pessoas idosas seja um trabalho mais árduo do que cuidar de crianças desamparadas. Porque estes idosos, já têm a sabedoria e o entendimento suficiente, para perceber a dimensão de uma perda, do abandono. Sofrem mais e não tem expectativas de melhora para a situação em que se encontram.
Por muito tempo o idoso era tratado como um estorvo para a família. Hoje, infelizmente, pude notar que eles ainda são considerados um empecilho, sendo abandonados em asilos por anos e sem ter uma visita sequer de algum familiar.Mas o fato é que o idoso, como qualquer outra pessoa, independente da fase da vida em que se encontra, pode e deve ser tratado com dignidade! Aliás, o vocábulo dignidade deve ser vislumbrado em consonância com o mais profundo sentido de solidariedade, necessários ao crescimento de toda sociedade.
Sob este prisma, o Estatuto do Idoso representa um grande avanço para a nação brasileira. Depois de acirradas discussões, em setembro de 2003, foi sancionada a Lei 10.741 com o objetivo de trazer dignidade e tratamento igualitário aos brasileiros com mais de sessenta anos. Em seguida foi sancionado pelo Presidente da Republica no mês seguinte, ampliando os direitos dos cidadãos com idade acima de sessenta anos. Contudo, mais do que aplicação de simples legislação, é preciso que cada cidadão se conscientize da importância do idoso na formação da identidade de um povo. Assegurando, para tanto, o cumprimento de todos os seus direitos, uma vida digna e penas severas para quem desrespeitar ou abandonar cidadãos da terceira idade.
O mais importante, ao ler a Constituição Federal, o Estatuto do Idoso, a Lei Orgânica etc. é ter um senso critico e avaliar o que está realmente sendo feito. Como já disse João Ubaldo Ribeiro “Vivemos em um país, onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no ônibus, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não dar o lugar”. É realmente uma vergonha.
No Art. 230 da nossa Constituição Federal, diz o seguinte “A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e o bem-estar e garantindo-lhe o direito à vida”. Mas desde quando isso realmente acontece? Desde quando os idosos sabem desses direitos? Desde quando o Estado tem o interesse de informá-los sobre esses direitos? Dizem que vivemos em uma sociedade democrática de direito onde se preza a igualdade substancial, ou seja, tratam os diferentes de forma diferente. Mas realmente não é isso que presencio diariamente na minha vida.
No Art.229 “Os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores, e os filhos maiores tem o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade”. Mas, não foi isso que eu ouvi de um senhor, no asilo, ao me contar que depois de sofrer um AVC - Acidente Vascular Cerebral foi abandonado pelas filhas no asilo, onde depois de dez anos, uma delas foi lhe visitar e lhe disse que não iria mais porque não sabia andar muito bem em Vitória. Que filhos são esses? Que abandonam quem se preocupou com eles a vida toda? Quem lhes deu carinho, atenção, comida, roupa, casa?
Onde está a bondade do ser humano, a compaixão com o próximo? Que mundo é esse, que olhar para si mesmo é o mais importante?O outro está sendo meramente o outro, um ser insignificante?Se não podemos, hoje em dia, contar com a própria família, com quem contar?
No Estatuto, diz que “Todo o idoso, desde que esteja apto, é quem decide onde quer morar. Deve ser assegurado o seu direito a moradia digna, com sua família natural ou substituta, ou ainda, sozinho, se preferir”. No Art.37 do Estatuto, “Além do idoso ter direito, nos casos de inexistência ou abandono da família, também deve ser obrigado em instituição pública ou privada, a oferecer padrão de habitação de acordo com suas necessidades e garantia de alimentação e higiene adequadas”.
Será que me iludi, ao ver o asilo tão lindo? Um pátio rodeado de bancos e árvores?Ao falar com o senhor “Que lugar lindo que o senhor vive”, ele simplesmente me responde. “Nem tudo que reluz é ouro. Cada dia para mim é igual, seja ele tendo sol ou chuva. Já viu um passarinho na gaiola? Sabe por que ele não canta?” Minha amiga respondeu que certamente, ele não cantava, porque estava preso. Ele concomitantemente respondeu. “Ele não canta, porque não está feliz. Eu tento todos os dias cantar, porque se depender de mim passo o dia chorando”.
A felicidade existe? Imaginem o sofrimento e a carência que este senhor tem. Os vejo como crianças com idade avançada. Eles nos seguem com o olhar, agarram nossas mãos para que a gente não vá embora. Isso dói, é um sentimento de impotência diante daquela situação vexatória.
Sai de lá, transtornada. Tento a cada dia acreditar mais no ser humano, como um ser bom... Mas me choco com as barbaridades que me aparecem ao longo da vida. E sobre a índole dos seres humanos? Cada vez desconfio mais, infelizmente.
Concluo achando que a efetividade depende do conhecimento dessas leis.Compete ao Ministério Público, dentre outros, zelar pelo efetivo respeito aos direitos e garantias ao idoso, promovendo as medidas judiciais e extrajudiciais cabíveis.Cabe a nós, enquanto cidadãos,o dever de conscientizar as pessoas que estão em nossa volta, de que todas as pessoas têm direito à vida, independente do período vivido, devendo a sociedade buscar todos os mecanismos para assegurá-la, da maneira mais digna possível.
Não podemos fechar os olhos e achar que esse grupo de pessoas não existe. Existe e precisa da nossa ajuda. Viveram anos, antes de nós cuidando do que agora fazemos parte. Eles não têm o direito, nós é que temos o dever de lhes dar a assistência necessária. Muitas vezes, acreditamos que por termos filhos ou parentes, não vamos passar por situação semelhante, mas o erro e a ilusão estão aí. O ser humano é imprevisível.Temos é que rezar e pedir a Deus para não passar pelos que muitos estão passando e principalmente ajudar os que necessitam. A razão de viver não é buscar sempre ser servido, mas servir quem nos rodeia e quem precisa.